Feliz é a inocente vestal; Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida. Brilho eterno de uma mente sem lembranças; Toda prece é ouvida, toda graça se alcança.”. Este é um trecho do poema “Eloisa to Abelard”, do poeta britânico Alexander Pope. Foi ao ler estes versos que Charlie Kaufman teve a ideia inicial para escrever “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”. Incrível, não? Pois é assim que Charlie Kaufman gosta de criar, com ideias que partem de sua vida, entretanto sem se limitar pelas amarras da realidade.
Escrevendo de uma maneira completamente diferente dos padrões Hollywoodianos, o roteirista Charlie Kaufman conseguiu ganhar prestígio entre os cinéfilos de todo mundo. A principal característica dos roteiros de Kaufman é a invenção. Não existe uma história quadradinha e, por vezes, elementos do absurdo ganham espaço em suas obras (como em “Quero ser John Malkovich”). Suas obras carregam diversas interpretações, mas, mais do que isso, carregam muito de seu autor (chegando ao ponto máximo em “Adaptação”). Analisarei três filmes de Charlie Kaufman: “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, “Adaptação” e “Quero ser John Malkovich”
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

Cena do filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças
Mesmo uma história romântica do improvável, entretanto adorável, casal Joel Barish e Clementine Kruczynski foge do comum dos romances atuais. O filme começa com o fim, vai para o meio, volta no começo e parte para um recomeço do fim. Achou díficil se situar no tempo/espaço do filme? Tente pelas cores do cabelo de Clementine (Kate Winslet).
Joel Barish (Jim Carrey) é um tímido, não consegue falar sobre os seus sentimento e é completamente inseguro. Ele namora Clementine, uma garota extrovertida, cheia de personalidade e extremamente impulsiva (em uma das cenas ela diz ser apenas uma garota perdida à procura de paz de espírito). Depois de uma briga, em um de seus impulsos, Clementine decide apagar Joel de sua mente. Para isso, vai em uma clínica chamada Lacuna, que no filme parece ser um tanto clandestina. Joel ao ficar sabendo do que fez Clementine, decide passar pelo mesmo procedimento e retirar a ex-namorada de sua mente. Segundo o médico responsável, Dr. Howard Mierzwiak, o tratamento, apesar de causar um dano cerebral, se assemelha a uma noite de bebedeira. No momento em que vai fazer o procedimento, o filme começa a acontecer paralelamente na realidade, onde Stan (Mark Ruffalo), Patrick (Elijah Wood) e Mary (Kirsten Dunst) trabalham no tratamento, e na mente de Joel, onde ele descobre ainda amar Clementine e tenta de todas as maneiras salvar a lembrança dela em algum espaço de seu cérebro. Para isso, viaja com ela para memórias de sua infancia e adolescência. Ele percebe que apagar Clementine de sua vida é apagar um pouco de sua vida também.
Michel Gondry é quem dirige o filme. Ele utiliza técnicas de filmagens baseada em ângulos e perspectivas diferentes, o que por vezes dispensa os efeitos especiais (a cena em que Joel tem 4 anos e está na cozinha de sua casa é um exemplo). As cores utilizadas na fotografia do filme, o azul e laranja, dão um certo lirismo.
Quanto ao roteiro, a história de Joel e Clementine funcionam muito bem, não só pelo carisma dos protagonistas, mas pela qualidade da construção dos personagens e dos diálogos entre eles. Mesmo o romance aparecendo de trás para frente, conseguimos compreender todas as causas que levaram ao esfriamento da relação. A história dos personagens secundários amarram bem o roteiro.
A imprecisão do tempo no começo do filme causa um pouco de estranheza, mas logo conseguimos mergulhar na projeção.
Na próxima semana, entra no ar a continuação desse post, sobre os filmes “Adaptação” e “Quero ser John Malkovich”. Acompanhem!





















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