Selton Mello dirige e atua no longa metragem “O palhaço”, que conta a história da trupe de circo “Esperança” vagando pelo interior do Brasil.
Umas das figuras artísticas mundialmente mais conhecidas são os palhaços. Sua figura vem desde antes de Cristo na forma de bobos que viviam nas antigas sociedades egípcias e chinesas. Na Idade Média, a figura do palhaço ficou intrínseca à figura do bobo da corte, com suas roupas coloridas e seu jeito meio louco.
Entre essas figuras está também a do Coringa, originado de uma carta do tarô denominada Il Matto (o louco) e que é remetida ao sentido de liberdade.
Na Commedia Dell’Arte da Itália do séc. XV, alguns personagens se popularizaram, entre eles, a figura do Pierrô, sempre melancólico pelo amor não correspondido de sua Colombina.
Se formos analisar, Benjamin, personagem se Selton Mello na comédia “O Palhaço”, se assemelha muito ao pobre Pierrô, com toda a melancolia mostrada no olhar meio perdido de quem procura algo em sua vida vazia. Mas sua tristeza não vem só da falta de sua amada. O que Benjamin procura é a liberdade, aquela que nas cartas é representada pela figura do Il Matto e no filme por um ventilador.
Benjamin seguiu a mesma vida que o seu pai, Valdemar, ou melhor, palhaço Puro Sangue. Ele sabe que herdará o circo “Esperança”, mas não tem tanta certeza se a vida de palhaço é aquela que ele quer.
O palhaço, não importa sua dor ou perda, não pode chorar em palco, seu objetivo é fazer as pessoas rirem, levar o humor ao público. Mas se o palhaço é quem faz as pessoas rirem, quem vai fazer o palhaço sorrir. É para essa pergunta que Benjamin tentará encontrar a resposta.
Selton Mello, que além de atuar dirige o filme consegue colocar essa dualidade de Benjamin na fotografia do filme. Quando Benjamin está no palco como o palhaço Pangaré, as cores são fortes, em tons de vermelho e laranja. Quando o que está em questão é a vida monótona de Benjamin, as cores são mais apagadas, em tons pastéis.
O elenco de apoio também é um espetáculo a parte. Precisaria de uma trilogia pra poder aproveitá-los da maneira que merecem. Personagens ricos de um país que se mostra tão distante de nós, já que é cada vez mais difícil encontrar apresentações circenses no estilo mostrado no filme. Os grandes espetáculos, com suas luzes e tecnologia tomaram o lugar do picadeiro das piadas simples e engraçadas.
Aliás, essas piadas são muito bem aproveitadas no filme, principalmente pelos atores convidados. Destaque para as aparições engraçadíssimas de Moacyr Franco e o lendário e maravilhoso Jorge Loredo (mais conhecido como Zé Bonitinho).
A trilha sonora também é bem legal, mistura clássicos do brega com músicas características de circo, mas em uma nova roupagem.
Selton Mello mostra na direção de seu segundo longa-metragem uma direção muito segura, apesar da dificuldade de atuar e dirigir ao mesmo tempo.
Enfim, um filme encantador, engraçado e com uma bela mensagem, tal qual a apresentação de um palhaço no circo…
Referências: O trickster e o palhaço: a permanência da transgressão – Aureliano Lopes da Silva Junior























