Eduardo Coutinho pode ser considerado um dos mais importantes documentaristas do Brasil. Desde sua estréia na área documental, com “Cabra Marcado para Morrer”, a principal característica de Coutinho está em ouvir seu entrevistado. Apesar de aparecer em seus filmes, ele não é o ponto principal do filme, como faz Michael Moore em “Roger e Eu” ou Morgan Spurlock em “A Dieta do Palhaço” (aliás, dois documentários que recomendo. Tratam de assuntos bem sérios, mas com muito bom humor).
Eduardo Coutinho possui em seus filmes longas cenas com pessoas falando. Ele ouve o seu entrevistado e intervém o mínimo possível em sua fala. Mas em cada intervenção o diretor consegue construir um grau de cumplicidade capaz de fazer com que as pessoas se doem a ele e ao seu filme. Isso é o que torna o trabalho de Coutinho incrível, em um mundo onde tudo é tão rápido, ele se propõe a ouvir e entender a história de cada um sem fazer julgamento de valores.
Eduardo Coutinho descobriu sua vocação para o documentário ao trabalhar no “Globo Repórter” que, no ano de 75 era extremamente ousado e inovador.
Logo após vieram trabalhos como “Cabra Marcado para Morrer”, onde revisita atores não profissionais que fariam com ele um filme sobre a morte de um sindicalista, mas que foi interrompido por conta do golpe militar. Depois disso vieram documentários que falavam sobre a fé (Santo Forte), sobre as favelas (Santa Marta – Duas Semanas no Morro), sobre a vida de um edifício de classe média (Edifício Máster) e sobre as pessoas que lutaram com Lula nas greves dos metalúrgicos do ABC (Peões).
Um anúncio foi colocado em um jornal convocando mulheres a contarem suas histórias em um estúdio. Oitenta e três mulheres responderam a convocação e em junho de 2007, vinte e três delas foram selecionadas para serem filmadas. Em setembro de 2007 atrizes foram chamadas para interpretar aquelas mulheres. O filme “Jogo de Cena” é justamente a edição das mulheres e suas histórias reais e das atrizes tentando passar realidade em um história que não é a delas.
Eduardo Coutinho, ao escolher as atrizes, mescla conhecidas, como Marília Pêra, Fernanda Torres e Andréa Beltrão com atrizes não tão conhecidas. Isso, por vezes, gera um sentimento de confusão no espectador, que não sabe se aquela pessoa realmente viveu aquilo que ela está contando.
Todo o filme se passa em um teatro. Não existe um cenário ou situações que desvirtuem quem está assistindo dessas mulheres e de suas falas, risos e choros. A todo o momento os equipamentos são mostrados. Não existe porque esconder que aquilo, acima de tudo é cinema.
O que o filme tenta passar é justamente as diferenças e semelhanças entre o real e a representação.
Cada história escolhida é forte. Mãe que perdeu o filho, filha que perdeu o pai, mãe que é ignorada pela filha. São enredos que poderiam servir de base pra qualquer novela feita por aquelas atrizes, mas que é só a vida real, histórias que são próximas e que poderiam acontecer com cada um de nós.
Também recomendo a obra mais recente de Eduardo Coutinho. O documentário “As Canções” mostra a importância da música para o brasileiro por meio de pessoas cantando e contando sobre suas músicas preferidas.
Referências:
LINS, Consuelo. O documentário de Eduardo Coutinho: televisão cinema e vídeo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.























