Na véspera do ano novo iraniano, Razieh, uma menina de sete anos, quer comprar um peixinho dourado, como manda a tradição do país – o ano novo, chamado de Noruz, é comemorado no primeiro dia de primavera no país, ou seja, 21 de março. Pela tradição, o peixe-dourado é colocado sobre a mesa em representação à vida longa.

A mãe, depois de ser convencida pelo filho mais velho e pelo choro insistente da filha, dá a ela 500 toman para que possa comprar o peixe (que custa 100 toman) e trazer o troco para casa, já que com o restante do dinheiro comprará os presentes da família.
Entretanto, de sua casa até o mercado onde esta o peixe, muitas coisas acontecem e Razieh acaba perdendo o dinheiro. Ela e o irmão, então, partem em busca de recuperar os 500 toman. Nesta empreitada, conhecem e contam com a ajuda de diversas pessoas.
Este filme, com roteiro de Abbas Kiarostami, é de uma simplicidade que, em um primeiro momento, pode até estranhar. O que de tão importante poderá acontecer com uma menina em seu caminho para comprar um peixe-dourado. De fato, nada de extraordinário. É simples e unicamente a história de uma garotinha que por conta de seu dinheiro é enganada, ignorada, mas também ajudada. Na simplicidade do roteiro de Kiarostami, encontramos mais uma vez a sutileza das relações humanas.

“O Balão Branco” é o primeiro filme de Jafar Panahi para o cinema. A estética aqui remete muito ao do neorrealismo italiano. O pouco dinheiro nas produções impede o uso de locações e cenários ou atores profissionais, mais ou menos como acontecia na Itália pós-guerra.
Todavia, isso não impede que as movimentações de câmera em ligação com as músicas e os silêncios estabelecidos no filme problematizem a situação da garotinha, em uma brilhante direção de Jafar Panahi.

Após “O Balão Branco”, Jafar Panahi continuou dirigindo filmes que trazem como temática os principais problemas iranianos. Entre eles está “O círculo”, que faz uma discussão sobre o papel da mulher na sociedade iraniana. Este tema voltaria em “Fora do jogo”. Colocar o dedo na ferida, juntamente com o apoio à oposição nas eleições para o governo iraniano fez com que Jafar fosse perseguido e condenado. Forças do Ministério da Defesa invadiram a casa do cineasta e confiscaram sua coleção de clássicos do cinema, alegando serem obscenos. Além disso, alegaram que ele estaria filmando um longa metragem que iria contra os princípios iranianos, cometendo, assim, delito de opinião.
Em carta às autoridades iranianas, Jafar Panahi declarou: “Acusam-me de ter desejado promover o espírito de tumulto e de revolta. No entanto, ao longo de toda a minha carreira de cineasta, sempre me declarei um cineasta social e não político, dotado de preocupações sociais e não políticas. Nunca desejei atuar como um juiz ou um procurador; não sou cineasta para julgar, mas para fazer enxergar; não pretendo decidir pelos outros nem prescrever-lhes o que quer que seja.
Permita-me repetir minha intenção de posicionar meu cinema para além do Bem e do Mal. Esse tipo de engajamento sempre custou caro a meus colaboradores e a mim mesmo. Sofremos os prejuízos da censura, mas é a primeira vez que se condena e prende um cineasta para impedi-lo de fazer seu filme. Também pela primeira vez é feita uma perseguição na casa do referido cineasta e sua família é ameaçada enquanto ele passa uma “estadia” na prisão”.
Nem mesmo a greve de fome ou o apoio da comunidade internacional envolvida com cinema conseguiram amenizar a pena de Jafar: seis anos de prisão e vinte anos sem poder dirigir, roteirizar, viajar ou dar entrevistas.
Apesar disso, Jafar Panahi, juntamente com o cineasta Mojtaba Mirtahmasb, lançou o filme “Isto não é um filme”, mostrando um dia em sua prisão domiciliar. O documentário esteve entre os exibidos na 35° Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Referências:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Noruz
http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2829,2.shl
Veja também as outras publicações da série especial sobre cinema iraniano: “DEZ” e ”A cor do Paraíso”.




















