Faça a coisa certa

“Violência para atingir justiça racial é impraticável e imoral. Impraticável porque é uma espiral descendente em direção à destruição. A lei do “olho por olho” cega a todos. É imoral porque pretende humilhar o oponente em vez de ganhar sua compreensão. Busca aniquilar em vez de converter. Violência é imoral porque subsiste do ódio e não do amor. Destrói a comunidade e impossibilita a irmandade. Promove o monólogo em vez do diálogo. A violência gera rancor nos que sobrevivem e brutalidade nos destruidores”. Martin Luther King

“Acho que há muitas pessoas boas na América, assim como há muitas pessoas ruins na América, que parecem deter o poder e se posicionam para bloquear o que eu e você precisamos. Porque esta é a situação, eu e você temos que preservar o direito de fazer aquilo que é necessário para trazer um fim a esta situação, e isso não significa que eu defenda a violência. Mas não sou totalmente contra usá-la como autodefesa. Nem chamo de violência quando é em autodefesa. Chamo de inteligência”. Malcolm X

Martin Luther King e Malcolm X foram dois ativistas negros que lutaram pelos direitos civis dos negros nos EUA. Entretanto, cada um lutou a sua maneira. Enquanto Malcolm X defendia a violência como meio de amparar e conquistar uma causa, Martin Luther King pregava a disseminação de ideias por meio do diálogo.

As duas frases que iniciam o post finalizam o filme “Faça a coisa Certa”, do cineasta Spike Lee, e mostram a dualidade dos dois ativistas políticos.

Dualidade esta que também marcam as atitudes dos personagens no filme, a começar pelo personagem “Radio Raheem” e seus anéis. Em uma mão o anel forma a palavra amor (representando o pensamento de Martin Luther King) e em outra mão a palavra ódio (representando o pensamento de Malcolm X).

Logo no começo do filme também somos apresentados ao personagem Sorridente, que com uma foto de Luther King e Malcolm X juntos, aponta as diferenças entre eles.

A história se passa no dia mais quente do ano. Com o calor, os ânimos de todos estão mais aflorados. Não temos um protagonista, mas um grupo de protagonistas que representam os moradores do bairro nova-iorquino Brooklyn.

Lá convivem os moradores locais, em sua maioria da raça negra, latinos, italianos e coreanos.

Todos possuem preconceito, mas este se mostra velado. Neste dia quente, Buggin’Out, um ativista local, ao ir comer na pizzaria de Sal e seus filhos, percebe que na parede da fama do local só há fotos de ídolos ítalo-americanos como Silvester Stallone e Robert DeNiro. Indignado, pede que Sal retire os quadros dos ítalo-americanos e coloque quadros de afrodescendentes. Sal se nega e Buggin’Out decide promover um boicote à pizzaria, que acaba virando uma verdadeira tragédia.

O diretor Spike Lee, conhecido por tratar do racismo de modo diferenciado em seus longas, cria um cenário perfeito para as tensões que vão se estabelecendo durante o filme. Para evidenciar o calor do dia, ele utiliza as cores bem saturadas, com predominância do vermelho e do laranja.

Ele também traz ângulos de câmeras bem ousados (destaque para a parte que Radio Raheem está conversando com Mookie em um plano onde aparecem os dois, e um movimento de câmera, Radio Raheem parece estar falando diretamente ao público).

O grande mérito do filme está em não fazer um julgamento de valores, tentando mostrar quem está certo ou quem está errado. Pelo contrário, mostra que pessoas oprimidas também tendem a oprimir. Outro grande mérito está em não apontar uma solução fácil para o problema, já que a situação é muito mais complicada do que se possa imaginar ou colocar nas telas de cinemas.

Autor

Tamara Alves

Estudante do curso de jornalismo da PUC-SP e estagiária da Secretaria Municipal de Cultura. Se interessa por tudo que esteja relacionado à área cultural, principalmente a sétima arte.

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