Após o sucesso de “O homem elefante”, David Lynch dirigiu o filme de ficção científica “Duna”, que acabou não alcançando o sucesso esperado.
A etapa seguinte da carreira de David Lynch foi o filme “Veludo Azul”, lançado no ano de 1986.
Veludo Azul
O filme começa mostrando uma pequena cidade do subúrbio norte-americano, daquelas bem características, com casas rodeadas de gramados verdes e cercas brancas. Em uma dessas casas um senhor rega o seu jardim quando sofre um enfarto.
Logo sabemos que se trata do Sr. Beaumont, mas não é sobre ele a história e tão pouco é ele a peça central de algum núcleo dramático. O enfarto serve de chamariz para apresentar ao público Jeffrey Beaumont, filho do senhor que acabará de enfartar e que, voltando do hospital, encontra uma orelha em decomposição.
Aqui, como a caixa azul de “Cidade dos sonhos”, a orelha serve como um portal que leva Jeffrey de um mundo pacato em uma cidade perfeita, para outro violento e sombrio, que se esconde, tal qual a orelha, nos lugares mais obscuros da cidade.
Jeffrey, ao encontrar a orelha, a leva para a delegacia, mas não satisfeito com a maneira da polícia solucionar o crime, decide ele mesmo bancar o detetive com a ajuda de Sandy, filha do delegado.
Eles conseguem pistas que levam até Dorothy, uma cantora de casa noturna que está sendo chantageada por Frank, um sociopata que sequestrou seu filho.
É interessante notar como David Lynch em nenhum momento faz mistério sobre quem é o vilão ou os seus interesses. A narrativa é muito mais focada nos problemas psicológicos de Frank e nas relações voyeurísticas de Jeffrey (comparada por Lynch ao voyeurismo do espectador).
O filme é feito compondo um estilo que mistura o noir ao surrealismo e ao expressionismo. Em todo momento David Lynch se utiliza da dualidade, seja da cidade, seja dos personagens, mesclando a psico humana ao gênero policial.
Twin Peaks
Ultrapassando as barreiras da telona, no ano de 1990, David Lynch resolveu se aventurar pelo universo televisivo com a série “Twin Peaks”, que ainda daria origem ao filme “Twin Peaks – Fire walk with me” e ao livro “O diário secreto de Laura Palmer”, escrito pela filha de David, Jennifer Lynch.
Mais uma vez, uma trama policial, que poderia ser representada de maneira comum, ganha um caráter surreal nas mãos de Lynch.
“Twin Peaks” para muitos é o precursor de séries adoradas como “Arquivo X” e “Lost”. Transmitida pela ABC nos E.U.A. e pela Globo no Brasil no inicio dos anos 90, a série conquistou inúmeros fãs ao contar a história de Laura Palmer e da pequena cidade de Twin Peaks. Laura, aparentemente uma garota perfeita, boa aluna e popular, é encontrada morta em um rio. A partir daí, se descobre que nem Laura, nem os habitantes da pequena cidade são o que parecem ser.
Em 1998, seis anos após o fim de Twin Peaks, David Lynch seria sondado para fazer outra série. Após gravar um piloto de 2h e 05 min de duração, mas a ABC não gostou do projeto (que seria transmitida nas noites de terça-feira, competindo com Friends e Plantão Médico) e colocou no ar a série Wasteland.
Apenas em 2000 o piloto da série foi lançado em forma de longa-metragem com o nome de Mulholland Drive (Cidade dos Sonhos)
Cidade dos Sonhos
O filme começa com uma estranha cena onde casais dançam sobre um fundo lilás. A música alegre sutilmente divide o lugar com zumbidos e, por cima das cenas de dança, repentinamente aparecem cenas de uma jovem sorridente.
Após isso, uma mulher sofre um acidente na Mulholland Drive (estrada hollywoodiana). Desmemoriada, ela se abriga em uma casa. Nessa casa chega Betty, moça que veio do interior do Canadá para tentar a carreira de atriz.
Ao se deparar com a garota desmemoriada, que diz se chamar Rita (ela decide dizer que esse é seu nome após ver uma foto de Rita Hayworth), Betty decide ajudá-la a descobrir o que lhe aconteceu, acreditando que a aventura será “como nos filmes”.
Elas encontram na bolsa de Rita uma chave, entretanto não sabem o que ela abre.
Rita se lembra do nome Diane Selwim. Elas procuram o nome na lista, encontram o endereço e vão até a casa onde possivelmente Diane mora, mas ao entrarem, encontram um corpo em decomposição na cama. Enquanto isso, Adam, um famoso diretor de cinema, se encontra em um difícil problema, com mafiosos decidindo quem será sua atriz principal e a esposa lhe traindo.
Betty, ao fazer um teste de elenco, encontra Adam que se encanta com ela.
No meio da noite, Rita acorda chamando Betty para ir a um lugar chamado Club Silêncio. Ali, se desenrola a cena mais surreal do filme, com Rebekka Del Rio, interpretando a música Llorando.
Assustadas e emocionadas, percebem que dentro da bolsa de Betty há uma caixa azul que, como mencionado acima, ao ser aberta com a chave de Rita, age como um portal levando-as para o mundo que parece ser real, onde Betty é Diane, uma atriz frustrada que vive à sombra da ex-companheira Rita, que agora é Camilla. Enciumada por Camilla se casar com Adam, Diane decide mandar matar Rita.
David Lynch compõe cada uma das tomadas de suas cenas de maneira a construir significados. Na foto acima, o rosto das duas protagonistas relembram a estética dos quadros do pintor Pablo Picasso
“Cidade dos Sonhos” é um filme todo moldado no caráter de desconstrução e reconstrução, seja em sua forma estética ou em sua narrativa.
O filme passa do romance policial ao surrealismo, com uma narrativa que além de não linear, a todo o momento é interrompida por cenas descontinuadas, fragmentos que não fazem sentido ou estão fora de ordem.
Como em qualquer filme policial, inúmeras perguntas são estabelecidas, entretanto, poucas são respondidas ao final do filme. Como em “Veludo Azul”, aqui não importa a resolução dos problemas, mas as pessoas envolvidas nele.
A narrativa se faz aberta, ao permitir que o público se coloque como detetive, participando ativamente da obra, recriando, segundo sua subjetividade, significados próprios para os signos colocados pelo diretor.
Para Lynch, aquilo que causa estranhamento ao espectador, também lhe ativa a capacidade de percepção, que ajudará a seguir os caminhos da obra não convencional.
Para quem quiser assistir “Cidade dos Sonhos”, David Lynch deu ao jornal “The Guardian”, dez pistas que ajudariam o espectador a encontrar as respostas:
- No começo do filme, antes dos créditos, duas pistas são reveladas.
- Fique atento quando aparece o abajur vermelho.
- Qual o título do filme para qual o personagem Adam Kesher está realizando teste de elenco? Ele será mencionado mais uma vez durante o filme?
- O acidente é um importante acontecimento no filme. Onde ele acontece?
- Quem entrega a chave e porquê?
- Fique atento para o roupão, o cinzeiro e a caneca de café.
- Qual mistério é revelado no palco do “Club Silencio”?
- Somente o talento de Camilla pode ajudá-la?
- Fique atento para o objeto que está nas mãos do estranho homem que vive perto da lanchonete “Winkie”!
- Onde está tia Ruth?
Boa sorte!
Referências:
Em águas profundas: criatividade e meditação – David Lynch
O cinema limítrofe de David Lynch – Rogério Ferraraz
Acordar os mortos – A estratégia intersemiótica de Cidade dos Sonhos – Moira Toledo Dias Guerra Cirello

























