Pina Bausch, uma das mais prestigiadas bailarinas dos últimos tempos inicia o filme “Fale com ela”, do diretor Pedro Almodóvar. Com um trecho da peça “Café Müller”, Pina Bausch parece anunciar todas as situações que se desencadeiam no filme. Na peça, duas mulheres com os olhos fechados esbarram em paredes e cadeiras. Pelas suas expressões percebemos que elas estão confusas. Enquanto isso, um homem de aparência triste retira as cadeiras que atrapalham o caminho das duas mulheres.
Na platéia, dois homens assistem ao espetáculo. Marco chora ao ver o espetáculo, já que este lhe faz recordar de coisas passadas. Benigno vê Marco chorando, e isso, de alguma maneira, mexe com ele.
Nesta ou na cena em que Caetano Veloso aparece cantando uma bela versão de “Cucurrucucú Paloma”, podemos perceber uma das marcas de Pedro Almodóvar, o uso da arte como um refúgio para a tristeza. Aos poucos vamos conhecendo a história de cada um daqueles homens. Este filme, diferente de muitos de Almodóvar, não é ancorado na figura de uma mulher, entretanto essas fazem parte e são essenciais para a compreensão do filme.
Marco foi deixado pela namorada e, ainda abalado, cai de amores pela toureira Lydia, que também havia sido abandonada pelo “Niño de Valência”. Entretanto há entre eles uma barreira de comunicação. Em certa cena, Lydia diz a Marco que precisa conversar com ele. Marco diz que conversaram por toda a viagem de carro, ao que Lydia retruca: foi só você quem falou.
Do outro lado está Benigno e Alicia. Benigno é diferente dos outros homens, já que passou toda a sua vida cuidando de sua mãe. É apaixonado por Alicia, jovem bailarina que tem aulas em frente a sua casa. Um dia, percebe que Alicia não vai mais às aulas. Ele a reencontra depois de um tempo, quando descobre que ela sofreu um acidente e está em coma. Benigno, então passa a ser enfermeiro de Alicia, dedicando a ela todo o seu tempo, como anteriormente fazia com sua mãe.
O destino une Marco à Benigno quando Lydia sofre um acidente em uma tourada e entra em coma, ficando internada no mesmo hospital onde está Alicia.
Trailer “Fale com ela”
Apesar do foco nos personagens masculinos, tudo aquilo que eles sentem ou fazem se relacionam aos personagens femininos. Benigno tem por Alicia a continuação do amor que tinha pela mãe. Cuida da menina e, mesmo com ela em coma, diz ter uma relação melhor do que muitos casais comuns. Já Marco não consegue essa ligação com Lydia. Os dois estão em um relacionamento onde tentam procurar no outro aquilo que perderam. Quando Lydia entra em coma, Marco não consegue se quer falar com ela.
As relações impensáveis, assim como a dedicação que os personagens exibem um pelo outro, permeiam todo o enredo. Também é incrível a metalinguagem que Almodóvar usa em certo momento da relação de Benigno e Alicia. Para mostrar o que estaria acontecendo na realidade, coloca dentro do longa um pequeno filme em preto-e-branco.
Não com tanta intensidade como em “Kika” ou “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, as características de Almodóvar estão ali, seja pelas cores fortes, a tela fora de esquadros ou os traços da atriz que interpreta Lydia.
“Fale com ela” usa de um roteiro não convencional para evidenciar o melodrama próprio das obras de Almodóvar, mas tudo com muita sutileza. Vale prestar atenção também na trilha sonora feita por Caetano Veloso, que contém belas canções da música popular brasileira.






















