O mundo de Woody Allen – Londres, Barcelona e Paris

Nos últimos anos Woody Allen iniciou a sua chamada fase européia. Apesar de ter dirigido filmes que se passam em Nova Iorque (“Tudo Pode Dar Certo” e “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos”), seus maiores sucessos foram feitos em Londres (“Match Point”, pelo qual foi nomeado ao Oscar), Barcelona (“Vicky Cristina Barcelona”) e Paris (“Meia Noite em Paris”).

Match Point

Woody Allen sempre sonhou em fazer um drama que pudesse satisfazer a si e ao seu público. Ele conseguiu o feito em 2005, com o filme “Match Point”.

Inicialmente o filme seria feito nos Estados Unidos, mas devido ao pouco orçamento que ele tinha na América, teve que rodar o filme em Londres, onde o dinheiro arrecadado seria suficiente para a filmagem. Por conta disso, teve que adaptar toda a história para a sociedade londrina.

A inspiração de Woody Allen para esse filme veio, sobretudo, do livro “Crime e Castigo”, onde, segundo a palavra do próprio “o assassinato está lá, mas ele é usado filosoficamente”.

O filme conta a história do tenista profissional Chris, um irlandês de origem humilde que dá aulas de tênis para Tom, filho de um grande empresário. A irmã de Tom, Chloe, se apaixona pelo tenista e ele vê nela uma oportunidade de crescer na vida. Entretanto é pela aspirante a atriz e namorada de Tom, Nola, que Chris realmente se apaixona. Chris se casa com Chloe e com o passar do tempo ganha a confiança de seu sogro na empresa. Se os negócios vão bem, o mesmo não se pode dizer de sua vida conjugal, em que ele não ama e não consegue engravidar a esposa. Após Tom romper com Nola, o romance entre ela e o tenista reacende e ele a engravida.

Nesse ponto Chris vai terá que escolher entre a paixão ou a estabilidade financeira e, mais do que isso, terá que tomar uma grande decisão, tendo que contar, acima de tudo, com a sua sorte.

Para Woody, esse foi um filme que mais lhe deu satisfação ter feito, principalmente por nele não ficar limitado à comédia. Todos os temas abordados nos filmes anteriores se encontram lá: o significado da existência, as neuroses humanas, os conflitos interiores, mas sem a leveza que o humor traz a esse assuntos, o filme ganha uma profundidade, que é explorada por Allen em detalhes que fazem toda a diferença. Desde a violência oculta aos olhos do público até a música utilizada nos momentos cruciais do filme – foram utilizadas óperas cantadas por Enrico Caruso – envolvem o espectador de maneira a deixá-lo angustiado, mas não horrorizado.

É justamente esse o ponto que o diretor toca ao falar da morte no filme como filosófica. O filme não é sobre assassinatos, mas as consequências dele. Outro ponto explorado é a maneira como a sorte influência na vida das pessoas. Afinal, como o epílogo do filme diz: “Um homem disse: “Eu prefiro ter sorte do que ser bom” viu profundamente a vida. As pessoas têm medo de encarar que uma grande parte da vida está dependente da sorte…”

Vicky Cristina Barcelona

Este filme de Woody Allen teve um inicio polêmico. O dinheiro utilizado para as filmagens do longa foram financiadas pela prefeitura de Barcelona para que o diretor fizesse um filme que servisse como cartão-postal da cidade. E realmente, os pontos turísticos tanto de Barcelona, quanto da pequena cidade de Olviedo estão lá, sem contar o som “caliente” das “spanish guitars”.

Mas não é só isso. A cidade logo se torna pano de fundo para um quadrilátero amoroso onde um personagem completa ao outro ao mesmo tempo em que se repelem. As amigas americanas Vicky e Cristina são tão diferentes que, ao final, se descobrem iguais. Se no começo Vicky é a garota responsável que está de casamento marcado com um almofadinha e Cristina é a garota que não sabe o que quer fazer de sua vida, ao final de tantas reviravoltas, Vicky já não é tão clara quanto ao que quer e Cristina já pode ter certeza de, pelo menos, o que não quer.

Quanto ao casal Juan Antonio e Maria Elena, de tão perfeitos um para o outro, precisam de uma outra figura que os complete e sustente suas neuroses. Figura essa que vão achar em Cristina.

Mais uma vez Woddy Allen se debruça sobre o amor, o sexo e a maneira como os seres humanos são tão dependentes disso. O que muda nesse filme é a maneira como o assunto á tratado.

Sem a grande metrópole como pano de fundo, os sentimentos aqui aparecem mais leves, mais compreensíveis. Tão dourados quanto à fotografia do filme, explorando as charmosas ruazinhas espanholas.

Meia noite em Paris – ou Paris nos anos 20 era uma festa

Woody Allen por muito tempo trabalhou como colunista da revista “The New Yorker Magazine”. Um de seus contos para a revista, chamado “Viva Vargas” deu origem ao falso documentário “Bananas”. E, ao assistir seu último lançamento “Meia noite em Paris”, é impossível não se lembrar do conto “Os anos 20 eram uma festa”.

Neste, Woody Allen discorre sobre uma noite com seus ídolos, entre eles os escritores Ernest Hemingway e Gertrude Stein. O conto parece servir de premissa para um dos mais encantadores filmes de Allen.

“Meia noite em Paris” reúne o romantismo e a dose de surrealismo de “A rosa púrpura do Cairo”. Entretanto, aqui não se trata de lidar com realidade e ficção, mas com presente e passado.

Gil Pender é um roteirista que reside em Hollywood, mas que sonha em ser um grande escritor e morar na capital francesa. Ele está noivo de Inez, uma mulher superficial e consumista, filha de republicanos que concordam com a guerra de George W. Bush declarou ao Iraque e criticam a França por não ter apoiado o governo americano. Uma noite, Gil resolve caminhar bêbado pela noite parisiense quando é convidado a entrar em um antigo carro. Ele é levado até uma festa que logo descobre se passar nos anos 20, época que ele considera a melhor de todas. Ali ele encontra figuras históricas que ele sempre admirou, como os já citados escritores Ernest Hemingway, Gertrude Stein, o casal F. Scott e Zelda Fitzgerald, os pintores Pablo Picasso e Salvador Dali (maravilhosamente interpretado por Adrien Brody), o cineasta Luís Buñuel e o músico Cole Porter, entre outros.

Mas quem realmente chama a atenção de Gil é a “groupie” Adriana, amante de Picasso que já teve caso com os Modigliani e Hemingway. Adriana faz Gil rever seu romance com Inez e a maneira como ele encara a sua vida. Se Cecília, em “A rosa púrpura do Cairo” tem de escolher entre a realidade ou a fantasia, Gil tem de escolher entre o passado e o presente, encarando o fato de que nunca estaremos satisfeitos com o nosso tempo e que aquilo que ficou no passado sempre vai interessar mais.

Enfim, se trata de um dos filmes mais divertidos, românticos, engraçados e nostálgicos de Woody Allen, assim como a Paris que tanto o fascina.

Referências:

As citações foram retiradas do livro: “Conversas com Woody Allen: seus filmes, o cinema e a filmagem”, Eric Lax.

“Cuca Fundida”, Woody Allen, tradução de Ruy Castro.

Autor

Tamara Alves

Estudante do curso de jornalismo da PUC-SP e estagiária da Secretaria Municipal de Cultura. Se interessa por tudo que esteja relacionado à área cultural, principalmente a sétima arte.

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