New York, Woody Allen está andando de um lado para o outro na varanda de seu apartamento em busca de uma trama para seu um novo filme. Por semanas ficou criando novas piadas e situações – em nenhum momento ele para de pensar em seus filmes: “Se fico sentado em algum lugar por dez minutos, desocupado, a minha cabeça está naquilo. Não dá para evitar. Volto para casa e estou pensando na coisa. É assim que funciona. Tento pensar até quando estou na cama, para dormir” – e agora é preciso juntá-las para criar o roteiro. Por vezes as piadas surgem como um flash, mas de vez em quando é preciso dar um respiro, tomar um banho, ir comprar o jornal ou andar pela varanda.
Em uma gaveta, o diretor mantém uma sacola cheia de criações e, na hora que precisa de alguma situação, ele procura entre suas antigas ideias uma inspiração.
E ele não descarta nenhum “palpite”. Eles só são retirados da gaveta quando são utilizados.
Após o filme estar pronto em sua cabeça, ele faz um esboço que lhe ajudará a dar forma à sua obra. Quando conta com a colaboração de co-autores, como Marshall Brickman, os dois por horas conversam sobre o que virá a ser o filme, mas é somente Woddy Allen quem escreve o roteiro, a mão. Como sua letra é difícil de ser entendida, ele transcreve o manuscrito em uma máquina de escrever antes de entregá-lo ao estúdio. E é desta maneira que o diretor cria todas as suas obras, de acordo com uma série de entrevistas que deu para o jornalista Eric Lax.
Muitos de seus trabalhos são autobiográficos, embora ele não admita isso. Segundo ele, muitas situações de seus filmes partem de experiências vividas, mas que quando passadas para o âmbito cinematográfico ganham um aspecto mais exagerado, quase distorcido. É assim em filmes como “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e “A era do rádio”.
Muitos dos seus filmes exploram os conflitos internos que existem dentro das relações humanas. Entretanto, em alguns deles, os as barreiras da realidade são quebradas e elementos surreais são colocados em tela.
É o caso do filme “A rosa púrpura do Cairo”, onde Woody Allen aborda a questão da realidade versus a fantasia (esse assunto também é abordado no fim de “Noivo neurótico, noiva nervosa”).
Na época da Grande Depressão, uma garçonete tem uma vida infeliz com o marido. Para curar um pouco sua tristeza vai ao cinema assistir várias vezes ao mesmo filme e fica absorta naquele mundo de fantasias. Até que um dia algo surpreendente acontece. O personagem Tom, apaixonado pela bela menina assídua espectadora de seu filme, sai da tela, causando uma crise nos outros personagens que permanecem dentro da projeção, mas sem poder seguir o script pela falta de tom e dos estúdios, tementes que Tom possa manchar a imagem do ator que o interpreta, Gil.
Decidido a manter sua reputação, Gil parte até a pequena cidade que Cecília mora decidido a também conquistar a garçonete, que se vê em uma difícil decisão: escolher entre o personagem Tom ou ao ator Gil.
Para Allen o mais importante do filme é o seu final, e ele exemplifica bem a maneira de pensar do diretor, como nas palavras do próprio: “Infelizmente, nós sempre temos que escolher a realidade, mas no fim ela nos esmaga e nos decepciona. Minha visão da realidade é que ela sempre foi um lugar triste para estar, mas é o único lugar ponde você consegue comprar comida chinesa”.
Um outro roteiro bem diferente do diretor é “Zelig”. Aqui a maneira como ele constrói a narrativa do filme é semelhante ao que ele já tinha feito em “Um assaltante bem trapalhão” e “Bananas”, na forma de um documentário.
Leonard Zelig passou por um imenso trauma durante sua infância ao descobrir que era o único garoto de sua turma que não tinha lido Moby Dick. Isso faz com que se sinta excluído e, para não se sentir mais assim, Zelig adquire a estranha capacidade de se tornar semelhante às pessoas que estão ao seu redor, para obter a aceitação delas. Assim, se ele está com chineses, se transforma em um chinês, falando inclusive a mesma língua que eles.
A única pessoa que se preocupa em ajudar Zelig é a psicóloga Eudora Fletcher. Zelig ganha fama mundial como “o homem camaleão”, inspirando músicas, danças e um filme sobre a sua vida, o que acaba o transformando em parte da cultura da época.
O mais interessante sobre o filme é a maneira como ele foi montado. O documentário conta com cenas de época (a cena que Zelig aparece com Hitler é de imensa perfeição) e entrevistas de grandes estudiosos falando sobre o fenômeno do “camaleão”, como a escritora Susan Sontag. Não fosse tão absurda a ideia de um homem que se camufla, muitos desavisado poderiam acreditar que Leonard Zelig é uma pessoa real.
E, voltando ao tema realidade, seria nossa existência cômica ou trágica? Esse é o assunto abordado no filme “Melinda e Melinda”.
Por mais que tenha se consagrado como comediante, Woddy Allen jamais escondeu sua admiração pelo drama.
O filme mostra o encontro de quatro pessoas que em um jantar começam a discutir sobre a essência da vida. A partir disto dois dramaturgos, utilizando uma mesma sinopse, a história de Melinda, passam a contá-la utilizando-se do drama e da comédia.
No fim percebemos que na verdade comédia e drama são só rótulos, a vida não é um traço reto que abrange ou uma ou outra, mas uma linha irregular que transforma a vida em uma fusão de comédia e tragédia.
Na semana que vem, o ultimo post sobre Woddy Allen falará sobre seus mais recentes filmes.
Referências
Todas as citações foram retiradas do livro: “Conversas com Woody Allen: seus filmes, o cinema e a filmagem”, Eric Lax.























